Distúrbios do sono e neurologia: além da insônia
Quando se fala em distúrbio do sono, muita gente pensa apenas em insônia. Mas o sono ruim tem várias faces, e algumas delas têm relação direta com o sistema nervoso. Reconhecer os padrões corretos é essencial para o tratamento adequado.
Este artigo apresenta os principais distúrbios do sono com relevância neurológica.
Apneia obstrutiva do sono
Condição em que o paciente para de respirar diversas vezes durante o sono, por segundos, devido a obstrução das vias aéreas. Consequências vão além do cansaço: aumenta risco de AVC, arritmias, hipertensão e piora significativamente cognição, memória e humor.
Sinais que sugerem apneia: ronco alto, pausas respiratórias percebidas pelo companheiro, sono não reparador, sonolência diurna excessiva, dor de cabeça matinal, boca seca ao acordar.
Distúrbio comportamental do sono REM
Nesse distúrbio, a paralisia muscular normal do sono REM não acontece. O paciente literalmente age seus sonhos: fala, gesticula, chuta, dá socos, pula da cama. Companheiros geralmente relatam agitação intensa durante o sono, às vezes com risco de lesão.
Esse distúrbio tem importância neurológica especial: em muitos pacientes é sinal precoce de doenças neurodegenerativas como Parkinson e demência com corpos de Lewy, precedendo em anos ou décadas os sintomas motores.
Síndrome das pernas inquietas
Sensação desagradável nas pernas, geralmente descrita como formigamento, ardência ou impulso irresistível de movê-las. Piora com repouso, principalmente à noite. Melhora com movimento. Compromete o início e a manutenção do sono.
Pode estar associada a deficiência de ferro, doença renal crônica, gravidez, diabetes ou ser primária. Tem tratamento eficaz quando corretamente diagnosticada.
Narcolepsia
Distúrbio raro, mas importante. Caracteriza-se por sonolência diurna excessiva e episódios de sono súbitos e irresistíveis, mesmo em situações de atividade. Pode vir acompanhada de cataplexia (perda súbita de tônus muscular desencadeada por emoções), paralisia do sono e alucinações relacionadas ao sono.
É frequentemente diagnosticada com atraso, pois os sintomas são confundidos com preguiça ou depressão.
Bruxismo do sono
Ranger de dentes durante o sono, com força suficiente para causar desgaste dental, dor mandibular ao acordar e dores de cabeça matinais. Pode estar associado a estresse, apneia obstrutiva ou uso de certas medicações.
Insônia crônica
Dificuldade persistente de iniciar ou manter o sono, com impacto no dia seguinte. Quando dura mais de três meses e acontece em pelo menos três noites por semana, é considerada crônica. Pode ser primária ou secundária a outros distúrbios (dor crônica, ansiedade, apneia).
O tratamento inclui higiene do sono, terapia cognitivo-comportamental para insônia e, quando indicado, medicações. Uso prolongado de indutores de sono comuns tem limitações e efeitos colaterais que precisam ser considerados.
Quando o neurologista entra
O neurologista deve ser procurado quando o distúrbio do sono tem características neurológicas: agitação motora durante o sono, movimentos anormais, sonolência diurna extrema, cataplexia, quando o sono ruim está associado a queixas de memória, dores de cabeça, sintomas motores, ou quando o paciente já tem doença neurológica que impacta o sono.
Em muitos casos, o exame chave é a polissonografia, que registra padrões do sono ao longo da noite.
Impacto do sono na saúde neurológica
Sono de qualidade é fundamental para a saúde cerebral. Durante o sono, o cérebro faz manutenção metabólica, consolida memórias e regula humor. Distúrbios crônicos do sono aumentam risco de doenças neurodegenerativas, comprometem cognição e reduzem qualidade de vida.
Se o seu sono não está bom há muito tempo, vale procurar avaliação. Muitos distúrbios do sono têm tratamento eficaz e diagnóstico bem estabelecido.

Dra. Tamires Macedo
CRM: 22274 | RQE: 16344
Neurologista em Fortaleza. CRM: 22274 | RQE: 16344. Formada pela UFC com residência no HGF.
